Seminovos e usados

EM TENTATIVA

Pessoal

Mora no Rio de Janeiro. Carioca adotivo, faz umas coisas por aí e já quis escrever com alguma disciplina, razão de ser desse blogue.

A Foto

No cabeçalho do blogue são três britânicos vasculhando os destroços da biblioteca de Holland House, em Londres, outubro de 1940, após bombardeio alemão. Nove em cada nove espíritos elevados concordam que entre uma bomba e outra há sempre espaço para uma flûte de champagne, um passeio de olhos em prateleiras repletas de livros e uma boa leitura. Sem dúvida.

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Domingo, Setembro 13, 2009

AS IRMÃS VIVALDA

As irmãs Vivalda fazem todas as coisas juntas desde que nasceram gêmeas de mesma mãe e pais diferentes. Estavam juntas quando nevou na cidade após anos de calor incessante e estavam lado a lado quando foram as únicas sobreviventes do terrível choque de carroças que vitimou os demais envolvidos inclusive os dois jumentos e o menino Ari que brincava ali perto na calçada.

Adoram jogos e nas feiras, bazares, festas e quermesses compram sempre números e cartões para disputarem nos bingos, loterias e sorteios, o que as deixa excitadas e felizes.

Enquanto o vencedor não é anunciado - nunca o nome delas- pela cidade vê-se os sorrisos de uma para a outra:

- Aproveite seu bilhete premiado.

Jantam sempre com Sereno que é o noivo de uma delas e é também de ambas. Quando anoitece, deitam-se no quintal gramado. Sob as estrelas são incontáveis as vezes em que Sereno quase duvida de sua sorte ouvindo uma irmã dizer à outra:

- Aproveite seu bilhete premiado.

As irmãs Vivalda são mais felizes enquanto não há sorteio.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

MESSAGE IN THE BOTTLE'S LITTLE MOUTH (AJUDA A UM AMIGO)

Just do it, baby.

Just don't do it not, bebê.

Do not do nothing at all.

Just do me, caroço do meu angu.

Do meu novo jeito, again.

Andagainandagainandagain.

Do me comigo.

Dorme beside me.

Dorme de bruços.

Let's shave do buço aos bagos.

Let's shake o leite derramado.

Put it up goela abaixo.

E se no one faria

I say

Like Reginaldo e Betty would do it

Nu

Eu também

Contigo faria too.

Dá, dá, dá

Doo, doo, doo.

Segunda-feira, Agosto 17, 2009

ÓCULOS

Pernas abertas
Num abraço em volta
Dos olhos.

E a lente de orelhas
Ouvindo nítido então.

Cabelos soltos
Que se prendem aos dedos
Só para os olhos
Verem seus olhos.

E na corte em baile
Sussurros no ouvido
De corpos uníssonos.

Com as pernas abertas
Laçando você

Meus óculos.

Sexta-feira, Agosto 14, 2009

E NAQUELA TARDE SOUBE

O amor não vem em latas

nem em embalagens de tetrapack.

Terça-feira, Julho 21, 2009

FIZESTE ANOS

Fizeste anos, Paulo, e

No dia, do almoço
Não cheguei a saber
Nem recebi prato

À noite, outra voz
Disse que talvez
Depois que estiver

Quando ele voltar.

Fizeste anos, Paulo, e

Por onde é que passas
Teu tempo fugido
(fugindo de nós)

Cozinhando os meses
Pontilhando os is
Recosendo nós

Imerso em botões?

Fizeste anos, Paulo, e

O amor cá esteve
E deu-nos estradas
Evitamos todas

Se tivesse placa
Soubéssemos ler
Vai, quem sabe,

Eu sei, nem assim.

Fizeste anos, Paulo, e

Os meninos crescem
Um andou doente
Outro corre solto

Perfeitos titãs
Tão lindo que é vê-los
Tão fortes que são

Sinto a falta deles.

Fizeste anos, Paulo, e

Deus nos disse olá
Noutro dia, lembras
À mesa, enfastiados?

Era aviso, acho,
Do que é nossa parte
Do que carregamos

Sempre o mesmo aviso.

Fizeste anos, Paulo, e

Já faz dias desde
Talvez nem dê mais
Talvez já não sirvam

Votos de alegria
De bondade infinda
Em teu aniversário

Validade finda.

Já não cremos tanto?

Então o quê, ainda,
Se nos passa a vida
E estamos contrários?

Mais em todos os dias(?)
Eu pergunto (te ofereço), Paulo

FIM DA PAUSA

Será?

Terça-feira, Junho 17, 2008

POIS É

Escrevi por aqui um tempão.

Daí uma chuva fina deixou tudo molhado.

Medo de ficar gripado, fim da picada, tudo partido.

Pedacinhos bem pequenos.

Espaços enormes.

Tudo bem no final.

Bem desse jeito.

Saudade é vontade que dá depressa.

Era isso.

Sexta-feira, Agosto 03, 2007

COPA E CONCURSO

Vou acompanhar a Copa de Literatura, da qual será jurada Olivia que, além de escritora, blogueira renomada e webdesigner para lá de competente (para quem não se lembra, ou chegou há pouco nesse blogue, a Olivia é a autora do template atual do Seminovos e Usados), já há muito tempo figura no LEIO deste blogue.

Apesar da falsa polêmica acerca da relevância do resultado de concursos literários (porque, afinal, todo concurso serve para que saibamos o melhor na opinião de quem decide o resultado do concurso, nunca para revelar o melhor do que quer que seja), a iniciativa é ótima, principalmente pela vontade que vai despertar em uma porção de gente de conhecer as obras que estarão na disputa (eu mesmo resolvi ler alguns, a começar pelo "mãos de cavalo", página 36 atualmente).

Fica a dica para quem gosta desse tipo de contenda.

E para quem estiver meio sem grana, a sugestão de hoje é concorrer ao vale de R$ 300,00 (para comprar livros) que o concurso Exercícios Urbanos, promovido mensalmente pelo Portal Literal, paga ao seu vencedor.

Dois coelhos numa etc. Você arranja um pretexto para escrever contos e ainda corre o risco de ganhar um polpudo vale-compras de livros, tudo em prol da singela motivação de equipar-se adequadamente para acompanhar a Copa de Literatura.

Podia ser melhor?

Segunda-feira, Julho 30, 2007

AULA 1

Jogava cartas, deitada, com uns amigos. Ele pensou melhor antes de chegar perto, perguntar o nome, puxar conversa, parecer esperto, chamar para sair, virar namorado e acabar jogando baralho com eles. Umas tias eram fãs de tranca e seu pai falava que nem padre dos males da jogatina, que arruinava vidas e destruía famílias. A mãe via uns progrmas na televisão com partidas de pôquer para quando o prêmio da loteria fosse dela e desse para viajar num desses navios com cassino. Até os onze anos a irmã conseguiu obrigá-lo a ser parceiro de buraco por causa de um segredo que ela sabia dele e era um segredo terrível do qual ambos se esqueceram e ele parou de ter que jogar com ela. Em vez de nadar - tanto espaço do Leme à colônia de pesca - o Arpoador logo ali, jogavam cartas. Desperdício. Ele deitou e fixou os olhos para cima querendo meio sério, meio brincando, que a luz forte o deixasse cego, mas ficou pouco tempo assim porque a luz estava realmente forte e lhe doía um pouco a vista. Coçou as pálpebras fechadas com os nós dos dedos. Olhou um pouco melhor. Ela tinha pouca cintura, mas a gordura nos culotes arredondava suas formas. Gostou, menos dos dentes, acavalados. Aparelho nem é muito caro hoje em dia, dá para pôr se a pessoa tiver saco para as idas ao consultório. Isso ele achava chato também, quase igual baralho, injeção e as aulas de francês com a professora que tinha sido grande amiga de sua avó. Escondeu-se atrás do copo limonada - odiava ficar com a boca seca - para vê-la caminhar até o chuveiro onde se banha quem não gosta ou acha poluída a água salgada. Tudo a mesma imundície, alguém sempre dizia na casa dele. Por isso voltava sempre seco. Tinha raiva dos sermões que faziam as micoses e infecções parecerem simpáticas. Também não podia andar descalço e as janelas abertas encanavam ventos que sepultariam todos na casa. A irmã era proibida de coisas como tomar leite ou de bater bolos se estivesse menstruada. Ele obedecia. Girou sobre o próprio corpo para vê-la melhor no banho. Os amigos gritavam umas piadas e ela sorria meio acanhada de ser o alvo das brincadeiras. Corria as mãos desde o cabelo, no tórax e nas pernas. Repetia o movimento devagar, num ritmo bem mais lento do que os risos e as gozações eram lançados. Os sons chegavam e iam desaparecendo em volta dele, meio distorcidos, até sumirem de vez. Pareceu que adormecia ou com um tipo de insolação. A vista escureceu por um tempo e ficou um bom tempo assim antes dele voltar a enxergar direito. Nova rodada do jogo, ela já de volta, sentada sob o guarda-sol. Ainda bem que não desmaiou ou algo parecido. Recompôs-se e voltou a observá-la em ação. Segurava as cartas com uma única mão e se abanava com o leque por elas formado. Às vezes ria. Noutras parecia um pouco zangada com os resultados da partida. Quando teve que escolher o que descartar, roeu as unhas ou uma dessas pelezinhas que vão se soltando junto às unhas, cuspiu o que tinha arrancado com os dentes, piscou ambos os olhos e arremessou a carta com dois dedos, fazendo com que ela girasse no sentido horário na queda. Riu da perfeição do arremesso. Riu de si, ele pensou, baixando os olhos quando ela se voltou para a risada dele. Jogaram por algum tempo ainda. Ela então se levantou para nadar. Ele fingia prestar atenção na roda de carteado. Assistiu a tudo meio de lado. O mergulho rijo. As braçadas. Longe, cada vez mais longe. O jogo prosseguindo, as piadas e suas brincadeiras. Quis falar com ela. Quis gritar. Mais longe. Os risos. Os olhos fechando. Que jogaria cartas com ela. Sempre depois da escola. Ele via. Sempre a via. Não via mais. Cada vez mais longe. Os homens a procurando. A luz forte escurecendo a vista. Não viu. Chegou seco em casa. Quis falar com ela.

OFICINA

Começou nova oficina de contos no Portal Literal.

Vou fazer os exercícios prescritos no final de cada aula e publicar por aqui.

A vocês que ainda lêem esse site, deixo o convite para fazerem o mesmo.

Dia bom e feliz em que esse blogue volta à sua função original, forçar-me à prática da escrita.

Sexta-feira, Julho 27, 2007

NOVOS LINKS

Muito me deixa honrado incluir na barra de links do "LEIO" do Seminovos, os blogues Where the wheter suits my clothes e DeTOnT3RiA, respectivamente comandados por meus amigos Maureen e Gualter.

Comum a ambos, a defesa de um lugar para o lirismo no mundo cotidiano e palavras que desvelam o que se esconde por trás do imediato, do banal.

Privilégio meu ter amigos assim.

Quinta-feira, Julho 26, 2007

BOLETIM DO PAN IV

'PANEGÓCIOS'

Ninguém duvida que os Jogos Pan-americanos criam inúmeras oportunidades de geração de renda na cidade. Por toda parte, o empreendedorismo do carioca faz surgir novas modalidades de negócios. Nos arredores do estádio do Maracanã, Valdyr dos Santos, 40 anos, camiseta regata, bermudas e chinelos de borracha, oferece seus serviços às pessoas que caminham na direção do outrora maior do mundo: “Olha o ingresso! Olha o ingresso da final! Olha o ingresso do bom!”. Pergunto se o Pan tem sido bom para os cambistas. “Não sou cambista. Sou facilitador do acesso pelo público a ingressos não mais disponíveis por meios oficiais”. Ante minha curiosidade sobre a diferença entre sua atividade e a dos cambistas, ele esclarece: “Não sei. Nunca fui cambista. Trabalhava numa multinacional, mas vislumbrei no Pan a chance de começar meu próprio negócio. –Olha a Arquibancada! Arquibancada a cento e cinqüenta!”. Um turista americano se aproxima interessado nos ingressos. Atento à oportunidade, Valdyr informa : “Arquibancada? Duzentos! Two hundred!”. Vende dois ingressos. Alego que cobrar ágio em cima de turistas todo cambista faz e ouço de bate-pronto: “Não é ágio. É segmentação! Promovo uma diferenciação seletiva entre consumidores, agregando valor ao produto final que oferto no mercado!”. E, sem esperar minha próxima pergunta, dá provas de que entende do mercado em que atua. “Foi bom falar com você, mas pode dar licença? Meu departamento de marketing numa opinion poll recente concluiu que a discrição é um valor corporativo muito apreciado por minha clientela. Jornalista perto atrapalha”. Antes responde à minha última pergunta: “Polícia? Até aparece de vez em quando. Mas o problema deles é com cambista. E meu planejamento estratégico prevê custos com difusão da cultura organizacional da empresa. Se vem um PM reclamar, explico a diferença, deixo um mico na mão do guarda e tudo se resolve”. Ergue os dois polegares, força uma piscadela para mim e sopra um “vai, vai, agora vai”, na minha direção. Na promoção, arquibancada a cento e vinte.

Quarta-feira, Julho 18, 2007

BOLETIM DO PAN III

'RESMUNGÕES DO PAN'

Em meio à festa promovida pela torcida brasileira nas competições dos Jogos Pan-americanos, há também aqueles que gostam de exercitar um tom mais crítico ao comentar o desempenho dos atletas de nosso País. É o caso de Augusto Lima, 32, e Jorge dos Anjos, 31, cujas enfáticas reclamações os diferenciam dos torcedores que parecem vibrar com qualquer resultado dos representantes brasileiros. “Esse negócio de ‘ganhamos a medalha de bronze ou de prata’ é ridículo! Perdemos a de ouro!”, vocifera Augusto. “Se bem que o pior mesmo é gente que vence o ouro, mas com desempenho patético. Eu gosto mesmo é de quebra de recordes”, lembra Jorge. Mesmo para quem assiste de perto à dupla criticar os atletas, é difícil apurar a causa de tanta acidez. “Hoje em dia é tudo muito fácil, tem patrocínio de empresas, paparicos na imprensa e tudo o mais. Assim até eu!”, avisa Jorge. “E o serviço nos estádios está péssimo. Me venderam cachorro-quente e não tinham sachês de maionese para acompanhar. Uó!”, pondera Augusto. Quando vou perguntar se o desempenho de algum atleta brasileiro até o presente mereceria seus aplausos, Augusto levanta-se e, puxando Jorge pelo braço (“Vamos, Jorge!”), despede-se apressado: “Temos que ir! Ainda falta ver os jogos de hóquei na grama e o boliche”. Descem a arquibancada e ainda posso ver o Jorge resmungando algo que não escuto. Parece com 'não me puxa assim que eu não gosto'. Acho.

BOLETIM DO PAN II

'OS HERÓIS DOS HERÓIS DO PAN'

Sentado na área destinada aos nadadores, o atleta boliviano Choclos Menendez, de 23 anos, exprime em seu rosto uma tranqüilidade incomum em competições de nível internacional. Caminha de um lado para outro acompanhado de seu tocador de MP3 e, entre movimentos que se assemelham aos de aquecimento só que malfeitos, deixa levemente aberto seu roupão na tentativa de flertar com jornalistas que cobrem o evento e mulheres que assistem às provas da arquibancada. "É chato ficar esperando entre uma prova e outra" - afirma enfadonhamente - "distraio-me como posso". Choclos irá disputar um total de oito provas, não passará da fase eliminatória em nenhuma delas e é o típico exemplo de uma categoria de atletas que não costuma desfrutar de reconhecimento pelo público, mas que são fundamentais para a consagração dos destaques da competição: os heróis dos heróis do Pan. Além de uma alimentação balanceada e uma preparação física e psicológica intensa, essa legião de atletas que jamais vencerá qualquer prova é parte do que é preciso para se fazer um vencedor. Entretanto, a atitude despreendida dessa turma nem sempre é reconhecida por quem acompanha os eventos desportivos. "Estou acostumado. Até minha mãe se envergonha de meu desempenho esportivo. Diz para todos que trabalho com vendas e que viajo muito por causa disso"- declara Choclos, resignado. "Somos imprescindíveis para que haja os vencedores, mas não somos valorizados por isso", desabafa. Indagado sobre o que o mantém motivado para prosseguir competindo em meio a tamanho descrédito, ele prontamente afasta qualquer dúvida sobre a convicção de fazer o que é certo: "Está maluco? E perder as viagens com a delegação? Estou no Rio, praticamente a passeio, bancado pelo Comitê Olímpico Boliviano. Quer mais?". E ainda revela um pouco da intimidade do que acontece na Vila Panamericana - "Além disso, estou passando o rodo lá na Vila. As americanas e canadenses adoram um sul-americano exótico". Sorri malicioso enquanto abre um pouco seu roupão e exibe o tórax para mim.

BOLETIM DO PAN

'ERIOVALDO, UM BRASILEIRO'

Eriovaldo Martins de Souza Fernandes e Fernandes, 26 anos, medalhista de ouro nos jogos Pan-americanos, ao comentar sua trajetória de vida até sua vitória consagradora faz questão de chamar a atenção para as poucas dificuldades que enfrentou até alcançar essa memorável conquista. "Foi muito difícil abraçar a carreira de atleta sem ter enfrentado os problemas por que passaram os campeões que eu via na televisão comentando suas conquistas. Eu era menino ainda e, sentado no colo de papai, esperando mamãe preparar o jantar em família, cheguei a invejar aqueles rapazes e moças tão sofridos cujos obstáculos na vida foram indispensáveis para lhes forjar um caráter vencedor", comenta o mais novo ídolo do esporte nacional. "A imprensa deveria lembrar de sua responsabilidade social e refletir sobre o mal que faz às crianças que têm vidas funcionais e que se sentem desestimuladas a sonhar em serem campeãs porque não tiveram que largar os estudos nem vender balas no sinal aos dez anos de idade". Ao lembrar dessa época, Eriovaldo se emociona: "Eu mesmo pensei em fugir de casa e largar a escola!". Parabéns, Ariovaldo, um brasileiro que pode encher o peito e dizer que venceu a falta de obstáculos e chegou lá!

Quarta-feira, Março 21, 2007

VOU ALI

Comer.

Quero almoçar mato, hoje.

Saudável, dizem.

Tomara que valha o sacrifício.

Mas sou resignado.

Vou às folhas.

Amor é bom e vem no arroz.

(Fuja dos embutidos! Está em todas as revistas que leio - expliquei para o salsichão que jantei na rua ontem à noite)

Segunda-feira, Março 12, 2007

NOTAS PARA COMPOR UMA MÚSICA BAIANA

E agora uma canção.

"Vamos salvar Jaci / Pintar a cara de urucum / Descendo até o chão / na dança do sacerdote Maia".

Faltam uns gritinhos tipo "iê-iê-iê" ou "zabulabêbabaiê".

Quero mandar para a Ivete cantar em micaretas.

Mas de protesto.

Só micaretas de protesto.

VIDA E ARTE

Ói a vida imitando a arte.

TV ligada no noticiário.

Bush agora está na Guatemala e se prepara para visitar um templo maia.

O noticiário mostra do lado de fora do templo manifestantes acompanhados de sacerdotes maias.

O repórter conclui relatando que, após a saída do Bush, os sacerdotes irão promover uma limpeza no templo, para livrá-lo dos "maus espíritos".

A Guatemala é aqui.

A Guatemala não é aqui.

JACI

Vejo nos jornais manifestações de repúdio ao Bush, por ocasião de sua visita ao Brasil.

Vem a mente uma historinha lida há muitos anos da turma do Papa-Capim em que dois exploradores alcançam a aldeia do curumim criado por Maurício de Souza poucas horas antes de um eclipse lunar.

A despeito das explicações dos exploradores o eclipse deixa a tribo em polvorosa e os mais bravos guerreiros empunham suas armas em defesa de Jaci (nome da lua em Tupi) que estaria sendo devorada por um espírito mau.

Um árduo combate se segue, com flechas e lanças sendo disparadas na direção da lua, até que os guerreiros conseguem expulsar a tal entidade maligna libertando Jaci que volta a brilhar no céu.

No final, todos celebram a vitória com gritos e danças (provavelmente parecidos com os que devem ter embalado a festa da vitória dos manifestantes após a partida do Bush).

Agora repitam um mantra que inventei e que é bom para aplacar a angústia no próximo eclipse da lua:

A culpa é da sociedade desigual, do capitalismo injusto
e do imperialismo ianque!”.

Isso, agora de novo.
Até passar.

Quinta-feira, Março 08, 2007

BANANAS

Estou cantarolando:

"Eu gosto de comer
aveia com banana.

Eu gosto de comer
aveia com banana
"

Ouvia as 'Bananas de Pijamas' cantarem e sempre me embrulhava o estômago por se tratar de evidente ode à bananofagia.

Malditos selvagens!
(Ou, onde estão os jesuítas quando se precisa deles?)

Muita saúva e pouca civilização os males do blábláblá...

Sexta-feira, Março 02, 2007

TATIBITATI

Picolé de coco
escorrendo
branco
dizendo
em mim
em mim.

Drops de amora
deixando
boca
se tanto
carmim
carmim.

Gostosa teima
no colo
gulosa
fervendo
meu sim
assim.

Terna espera
de fora
pronta
ralhando
se eu vim
não vim?

Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

PROGRAMAÇÃO DE FÉRIAS

Tinha uma rua em que morava uma moça chamada rua em que morava uma moça.

Quero ir à praia nadar e pegar ondas.

Você vai estar na areia?

Estão chegando minhas férias e eu não sei o que fazer com elas.

Ai, ai...

Vou acabar vindo trabalhar, como no ano passado.

Não quero.

Ou então vou acabar indo ao templo do Santo Daime.

Ai, ai...

Quanto tempo e energia não foram gastos em Teu nome...

Decidi que terei aulas de kung-fu.

Quero me tornar um monge Shaolin e dominar a arte da espada sangrenta.

Comer cachorro-quente de madrugada.

Você vai estar na areia?

Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007

MEDO

De ratos sob bancas de jornais,
portas que não abrem por dentro,
os cocainônamos.

Desabamento de casas,
comida envenenada,
os cocainômanos.

De ter como regra algo,
bolhas de sabão,
os cocainômanos.

Dentista, chiclete no cabelo, dor.
Dedo quebrado, tetraplegia, você perdida.

Proxenetas, apaniguados, você perdida
não me causam medo
os cocainômanos.

Quinta-feira, Fevereiro 08, 2007

NOTAS PARA COMPOR UM VIRA

"Uma hora adora, outra hora odeia,
uma hora adora, outra hora odeia,
uma hora adora, outra hora odeia,
uma hora adora, outra hora odeia".

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

DECLARAÇÃO

Não gosto de você decente.

Prefiro o consultório do meu dentista (onde o ar é refrigerado e há revistas em quadrinho para os pacientes infantis - o que inclui as crianças).

E pode ficar de meias, se os olhos permanecerem abertos.

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

DOIS TIPOS DE PESSOA

Eu não gosto de sentir medo. Mas gosto de balas de coco.

Brancas, docinhas e dão um trabalhão para fazer.

Se vierem me procurar, estarei naquela cadeira.

Calculando a velocidade de aproximação dos escafandristas.

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

NOTAS PARA COMPOR UMA SALSA

"Namorando na soleira,
namorando na soleira,
namorando na soleira,
em plena segunda-feira".

NOTAS PARA ESCREVER UM CONTO

Amanhã já era terça quando se despediram.

Sexta-feira, Fevereiro 02, 2007

E NA MANHÃ SEGUINTE

O que me fode é o sexo.

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

UM CONTO DE DUAS IDADES

Lembrou que a aniversariante era amiga em comum de ambos quando já estava a caminho da festa. Se tivesse lembrado antes, chegaria mais cedo. Fazia tempo que não a via e oportunidade como aquela não se repetiria tão cedo (deveria ter se lembrado, droga!). A pequena multidão que se espremia impediu-o de vê-la por pouco tempo. De pé, cabelos cor de cenoura, bonita como se lembrava dela. Passou a seu lado em direção à escada que levava ao mezanino onde a aniversariante recebia os convidados. Esticou os olhos e percebeu sorrisos em meio às conversas. A Cenourinha tinha companhia. A cada degrau, percorria partes da história dos dois. Primeira vista. Provocações. A certeza de que seriam um do outro. Concretizar o encontro. Apaixonarem-se. o confronto com às exigências que as paixões impõem. Desenlace. Desfecho. "Feliz aniversário!". 'Obrigada'. "Você merece!". Descendo escadas, novo olhar. Ela o vê. Cumprimenta-o com acenos e palavras que só podem ser compreendidas pela leitura dos lábios. Má idéia. Lembrou dos lábios. Passa direto. Não quer constrangê-la. Não quer se constranger. Ouve a música. Finge dançar. Finge que conversa. Corta o salão a procura de frestas na multidão que permitam enxergá-la. O samba em volume altíssimo não atrapalha a música em sua mente. Só ouve a trilha sonora de ambos. Angra, Marillion e os Hermanitos. Não vai caminhar até ela. Não vai dizer que é bom revê-la. Não vai lhe dar um beijo (pelo velhos tempos, for god sake!). Não vai roubar um banco, nem ser perdoado pela História. Passa o cartão de débito no caixa. Recupera a bolsa de ginástica no guarda-volumes. Toma o táxi que o segurança lhe oferece. Antes de chegar em casa, ainda ouve do motorista que há noites em que nada dá certo. Gira a chave. Abre a porta. De pé, inesperada, sua ruiva. Sua Cenourinha. Cai o molho de chaves. Ouve boquiaberto escapar pelo sorriso dela: "What took you so long, stranger?". Desce do carro e dá razão ao taxista, que parte ignorando o pagamento a mais. 'Pode guardar o troco'.

Sábado, Abril 01, 2006

PAUSA PARA OS COMERCIAIS

Conheça a mais nova campanha patrocinada pelo Seminovos clicando AQUI.

Depois divulgue-a Brasil afora e ajude a dar um lar a tão singelos animaizinhos, ok?

Agora de volta à programação normal (tão logo haja tempo, tão logo haja tempo).

Sexta-feira, Fevereiro 03, 2006

TRÊS VARANDAS COM TOLDO

Barcos, gaivotas de ferro,
luz do sol no campanário.
Uma ponte erige-se
nonde trafegam carros.

Uma refinaria.
Um estacionamento.

E dentro um jarro de plantas
onde cortei no espinho meu dedo do meio.

Não o ponho mais onde devo,
não lhe conto novos segredos,
azuleja lá fora o mar.

Três varandas com toldo.
Uns prédios esmaecidos.

O vidro não é tão sujo,
é toda minha mancha, cedo,
todo meu lugar.

Sexta-feira, Janeiro 20, 2006

UMA TAL BELEZA

Uma tal beleza,
tal alegria,
primaveras findas
quando o verão chega.

Benfazejo gosto
na fotografia
e desvelo ainda
onde o sangue falta.

Tanto de nós
é leste,
outro oriente
por ser inventado.

Ou dito de outro modo:

Você ao lado,
contradança aceita,
dispensado ensaio.

Segunda-feira, Janeiro 02, 2006

EU SOU BONITA!

- Eu sou bonita! Eu aceito ser bonita!
Gritando seu desespero Maria conseguiu interromper os passos de Antonio.
Ele, no outro extremo da ponte, afastava-se decidido a não lançar olhar sobre os ombros. Parou de costas, a cabeça menos pesada. O grito da mulher de gestos impulsivos e coração enorme parecia oferecer algo novo.
Virou-se aos poucos, cauteloso mas inebriado pelas palavras que acabara de ouvir. Maria viu surgir de novo o rosto do homem de coração despedaçado e gestos seguros.
O peso da mochila em suas costas obrigava-o a caminhar curvado. O quasímodo particular dela. Quando ele parou bem perto, quase dentro de seus olhos, ela sorriu.
- Você é bonita, Maria! Muito bonita.
- Eu aceito, Antonio! Aceito ser bonita! Desde que a beleza dure para sempre. Somente se for para sempre!
A condição imposta e inesperada encontrou-o desprotegido. Tanto quis dela que aceitasse seus elogios, que ela os recebesse como partes de si que ele ofertava em sacrifício. Não imaginava possível haver senões à sua oferta. Não sabia lidar com objeções ao que julgava perfeito.
- Apenas se durar para sempre, Antonio! Do contrário não! Do contrário não quero!
Antonio inerte.
Nele, reação nenhuma. Há surpresa pela veemência da condição imposta pela mulher e o choro toma o rosto de Maria. As lágrimas aumentam. Antonio mudo. Não pode assegurar a eternidade da beleza de Maria.
Desesperada. Linda.
Antonio aproxima-se. Chega-lhe por seus pulsos, que agora estão seguros. Os pulsos tomados não calam o choro, não fecham a alma.
As mãos de Maria são abertas e Antonio nelas deita o próprio rosto. Sua mulher quase se afoga no próprio choro e ele sente o medo passar.
Olhos nos dela, as mãos nas mãos de pele clara e lisa, as unhas bem-feitas, esmalte claro. Segura com força os dedos dela, que já não respira, coração aberto. O gesto é rápido. Os olhos de Antonio, as unhas tão bem cuidadas forçadas pupila a dentro. O encontro súbito e a mistura de sangue e lágrimas. O vermelho escorre, ralo, diluído.
Ele de joelhos, ela aos poucos retorna a si.
Coloca-o nos braços entre soluços. O amor que sente não cabe na calçada daquela ponte.
Ela é bonita naquele homem. Para sempre nele.

Sexta-feira, Novembro 18, 2005

RECEITA

Liguei sim.
Já era tarde, eu sei, mas liguei pra te oferecer cachorro-quente.
Era tarde porque eu cozinho sem pressa, lindo.
Com cuidado.
Uma hora e meia até estar tudo pronto.
Devagar. Para o apetite ir se abrindo com o manuseio dos ingredientes.
Para a vontade se instalar por dentro, junto da difusão dos aromas.
Cortar e socar o alho.
Cortar em cubos a cebola.
Separá-los em potinhos.
Adoro cheiro de cebola cortada (embora deteste as lágrimas nos olhos).
Despelar os tomates.
Um por um.
Cortar em fatias.
Transformar em cubinhos as fatias.
Fatiar as salsichas.
Picar as azeitonas pretas.
Esquentar o óleo na panela.
Alho no óleo quente.
Fritar as cebolas.
Fritar a salsicha.
Despejar o tomate.
Reduzir tudo a uma pasta homogênea.
Acrescentar o extrato de tomate.
Salgar.
Apimentar.
Azeitonas.

Mexer, mexer, mexer.
O tempo todo mexer.

O segredo todo está nos pulsos que mexem a mistura.

Às onze o cachorro foi servido, enfim.
Foi quando liguei para te oferecer.

Você não pôde atender.
O barulho do jogo de baralho não deixou você ouvir o telefone tocar, não é mesmo?
Barulho do baralho é péssimo cacófato.
Não deveria ser escrito jamais.

Mas foi o que houve, não é?
Então precisa ser dito.

Que bom que houve baralho.
Gosto de baralho.
Gosto da idéia de pessoas que se amam jogando baralho.

Gosto da idéia de você feliz, baixando canastras, roubando montes, acertando tapões, vencendo rodadas com seus royal street flashes, ou seja lá que outro jogo vocês tenham jogado.

Gosto é a palavra-chave da manhã de hoje.

Gosto de você.
E gosto de cachorro-quente.

O que é bom, porque você não ouviu o telefone tocar minha ligação em que eu ia te oferecer do cachorro-quente que fiz e que acabou sobrando junto do pão.

O que é bom, já que você estava feliz e eu gosto de cachorro-quente.

Vou fazer macarrão quando acabarem as salsichas.
Vou ligar novamente para oferecer.

Eu não gosto de macarrão.
Tomara que no dia não tenha baralho.
Nem gamão, sinuca, porrinha. Nada.

Tomara que você não esteja feliz.

Tomara que você aceite.

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

NINGUÉM

Cada corte sobre minha pele é um pouco seu. Eu amo muito e quem ama divide sempre. Divide tudo. Cada corte desses, que de longe dá pra perceber, é um pouco seu. Tudo é um pouco seu. Tudo é todo seu e eu sou toda sua. Viado! Cada arranhão nas suas costas é um pouco seu também. Você não adora quando eu invento destemperos, quando eu ajo desesperada? Quando eu mostro sem vergonha nenhuma que para mim só importa ser sua mulher? Não adora? Pois é. Tudo tem um preço nessa vida. Não existe mulher como eu, que faça as coisas que eu faço, do jeito que eu faço, de graça. Ainda mais para um babaca como você! Nem puta é de graça, sabia? Vai ouvir meus gritos, sim. Vai assistir às minhas performances, sim. Sempre que eu quiser. São os meus showzinhos particulares. Não é assim que você chama quando eu preciso ter certeza de que sou sua e que você é meu? Não é assim, seu merda! Por que você faz isso comigo? Pra que quer me matar assim? Por que é que você faz tanta força pra tentar me destruir? Você vai acabar conseguindo, desse jeito. Já está conseguindo. Se você continuar eu morro. Não está vendo?

- Olha só, amor. Show do Oswaldo Montenegro na praia. A gente podia ir, não podia? Que tal?

Que cara é essa? Não pergunta, idiota! Cala a boca e chupa! Finge que não está acontecendo e beija! Ninguém vai ser desse jeito pra você. Você não sabe disso? Ninguém vai ser só pra você. Beija com força. Porque ninguém vai. Beija. Eu morro se você parar. Pára!

Quinta-feira, Outubro 27, 2005

ESSES

Esses que crêem que toda literatura é autobiográfica, no fundo, no fundo, descrêem da própria literatura.

ACIDENTE

Um grito corta o vidro
janela aberta à força
o galho adentra
meu olho arranha
estilhaço seco
gelo, sereno negro,
é quase manhã na estrada.

O mato abocanha
bolsa perdida, meu pé
descalço, é cedo
em breve, juro
digo os versos todos
jovens, coração vivo,
por seu amor este um

milagre maior
do que termos todos sobrevivido.

Quarta-feira, Outubro 26, 2005

MÃE

Não espere por mim, filho. Vai andando que sua mãe segue logo atrás. Vamos, que é logo ali na frente, já está chegando. Não reclame, menino, pois já termina a caminhada e depois é só passeio de carro. Você não gosta de andar de carro? Mamãe ama você, lindo. Nós estamos indo naquela praça, perto daquele prédio que uma vez você disse que achava bonito, lembra? Já disse que não fica longe. Você é que não está mais acostumado a andar. Quando você era menorzinho você andava comigo o tempo inteiro, para todo canto, e nunca precisou de colo, sem manha. Claro que você vai gostar de passear com seu tio. Não vai ser como da outra vez, mamãe promete. Esse tio é muito mais legal que o outro. Mamãe vai comprar um carrinho novo para você. Você gosta de carrinhos, não gosta? Sem manha, menino... Olha aí. Chegamos! O carro já está ali parado, vamos rápido. Seu tio não gosta de esperar. Deixa disso, garoto. Entra logo! Você gosta de passear de carro, lembra? Que cara é essa, menino, hein?

- Mãe...

Pode ir filho. Mamãe depois te dá o carrinho. E um sorvete. Mamãe vai até separar o dinheiro, tá vendo? Pronto, essa parte é para você ficar feliz depois. Mamãe te ama, lindo.

Terça-feira, Outubro 25, 2005

SONETO

Se eu te peço novos modos
de apontar visões, esquece.
Gosto mesmo quando olhas
do jeito de ver de sempre.

Se eu te peço alternativas
à tua imagem, finge
que desconheces o que te digo.
Como és, é que de ti gosto.

É de boca que falo apenas
se digo longe de novidades
por que anseio supostamente.

Dura até se te tenho idêntica,
onde? novamente ao lado
quando? cotidianamente.

Terça-feira, Outubro 04, 2005

INTERLOCUÇÃO

- Quando me dá vontade de fazer uma canalhice daquelas bem grandes eu sempre reluto um pouco, mas quando vejo já estou me questionando por que não fazê-lo e, no final, acabo cedendo. Sabe como é?

- Hummm... sim, sim... Por que não?

Terça-feira, Setembro 20, 2005

19º ANDAR

Sem mais nós
Sou
E somos

E tantas vezes
Menos
Santo

Vejo alto quando subo
Escuridão de dentro

Eu


Onde tudo despejo inteiro
Acabo cheio

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

SILÊNCIO ATENTO

Silêncio atento
em que se ouça
e com graça cale-se
o ruído.

Cadência certa
em que se meta
e materno ordene-se
o rumo.

Música em torno,
vem!

Bem-vinda! Trilha certeira,

louça posta
a serviço da novidade:

namorá-la à noite
e dividirmos olhos,
segredar lampejos
e invadir-lhe os seios.

Enfim! Incontida
flor de uma nova era,
o amor em mim,

perfume raro.

E o antigo anúncio,
novo brado revolucionário:

existe o amor, de fato,
como dizem tantos
e muitos sentem,
afortunados.

Amor! Que migra todo
do intuito à prova,
um novo estado,

lucidez clara.

Limite aberto
onde eu mesmo caibo

admirado,
admirado,

nosso tamanho juntos.
Nossos dois colados.

Quinta-feira, Setembro 08, 2005

MAIORIDADE

Maior idade legal à beça!

- Vinte e um.

Bom e belo e amado.

Felicidades.

BALÉ

- Sabe uma coisa que eu não consigo entender? Por que resolver dançar balé agora, já adulto? Cara, você trabalha, tem mulher, já é pai. É esquisito pacas isso, você há de convir.

- Mas não é nada complicado, chega a ser óbvio até. Como você bem disse, eu hoje estou casado. Lembra da vovó dizendo que as mulheres se casavam para sair de casa, poder estudar, trabalhar, trepar, etc? Quando um homem decide fazer balé, ele é sempre acusado ou de ser viado, ou então de querer comer as meninas com quem ele vai dançar. Estar casado me livra a cara dessas duas acusações.

- É só isso? Quer dizer então que você sempre quis fazer balé, mas a opinião dos outros a seu respeito te impedia? E depois que você se casou você se viu liberado? É isso?

- Não é só isso. Estar casado acaba redirecionando boa parte das suas energias. O que você antes consumia com farras, festas e congêneres, vira excedente, uma sobra de força e tempo que é preciso aproveitar de alguma forma.

- Putz! Então foi falta do que fazer? Energia demais não aproveitada?

- Não apenas, não apenas. Quando se cresce e a vida adulta se impõe, tudo se torna pesado. Sua mulher reclama de tudo o tempo todo, o bebê não pára de chorar, o trabalho se acumula, o dinheiro não dá para pagar as contas. O prazer some. Tudo é cada vez mais sofrido e pesado. A tal maturidade, como gostam de chamar.

- E dançar balé e uma forma de amenizar isso? Mexer o corpo, se expressar artisticamente. É isso, então?

- Pelo contrário. O balé é vexame e dor. Você faz papel de palhaço desde o momento em que calça as sapatilhas e veste aquela calça de malha e o collant, até o final das aulas, já que você obviamente não tem mais a força e a flexibilidade necessárias para acompanhá-las. É bom para te deixar morrendo de saudades do condicionamento físico que você teve e deixou para trás em algum lugar de sua infância. Desde o primeiro dia suas costas parecem ter sido esmagadas por um trator. Os tendões do tornozelo imploram pelo amor de deus que você pare já aquela sandice de exigir que eles se dobrem mais do que a natureza permite. Os joelhos inflamam e a dor te leva a perder as forças. Dói tanto que você é obrigado a se sentar, ou até mesmo deitar, esperando que ela passe. Quando não passa, o jeito é tomar um grande coquetel de antiinflamatórios. Isso se quiser continuar fazendo coisas simples, como caminhar, por exemplo.

- Caralho! Se não existe arte, se não te faz bem nenhum, só te detona mais do que você já reclama estar detonado, por que fazer essa droga de aula de balé?

- Por isso mesmo, cara. Por isso mesmo. Passa o saco de gelo, agora, sim? Ah! E alcança o controle remoto. Adoro esse seriado.

Segunda-feira, Setembro 05, 2005

SOUBE

Eu soube que nosso amor duraria para sempre desde o início, sabe? A gente quando é mais novo, o pessoal que é mais velho fica dizendo para não perder tempo com essas coisas de romance e amor, que é tudo bobagem, toma tempo, que a gente deve mesmo é estudar e se preocupar com o futuro. Mas comigo nunca deixei que fosse assim. Nunca me deixei acreditar nisso que eles falavam. Meu futuro era para ser com você. E hoje, cinqüenta anos depois, a gente pode dizer isso sem medo de dizer mentira, não é, bem? Quem diria que ia dar nisso? Quer dizer, eu diria. Claro que eu diria. Desde o início eu já podia dizer. Ali, quando você pegou minha mão e colocou no seu peito, sobre a camisa, no lugar do coração. Tão romântico eu e você detrás da igreja da praça, na festa da padroeira, no dia em que nos conhecemos... Ali eu já podia dizer, bem, que ia ser do jeito que foi, não é mesmo?

- Mas eu nunca peguei sua mão, muito menos atrás da igreja, de sei lá que praça. Nós nos conhecemos trocando cartas. Esqueceu?!!!

Não importa, bem. Não importa nada, nem faz diferença. Você pega agora nela, ora pois. Segura aqui. Põe em cima do coração. Isso... Tão romântico, bem. Era para ser, não tenho dúvida nenhuma. Ia ser assim. Eu sempre soube.

Terça-feira, Agosto 09, 2005

ÚLTIMA VEZ

Pela última vez você disse o que devo fazer.

- Amor! Entra e toma seu banho para eu secar suas costas e fazer massagem!

Eu sei o que você faz quando eu não estou perto.

- É gostosa ou não é essa toalha que comprei no armarinho ontem?

Eu sei o que você pensa quando eu não estou olhando.

- Acho que vou mudar esse quadro de lugar. Não ia ficar muito melhor naquela outra parede?

Sei com quem você faz.

- Viu o filho do Jorge jogando futebol? Está enorme o menino.

Sei em quem você pensa.

- O Tarcísio Meira continua lindo, ai, Jesus.

É só esperar o momento certo.

- Joga luz com a lanterna dentro do forno para eu ver por que o gás entupiu?

Do jeito certo.

- Essa sua cara não me engana... Sei bem o que ela significa. Vem deitar que eu faço ela passar, vem, meu grandalhão.

Com calma.

- Não vai dizer para sua mulher de onde vem essa preocupação toda?

“Unha encravada, amor. Essa unha encravada incomodando de novo. Só isso”.

Última vez.

Quinta-feira, Agosto 04, 2005

JUNTO

Sei que esse ônibus cheio não é o melhor lugar para falarmos sobre isso, mas quero que saiba que compreendo sua fixação totalmente mal resolvida por sua mãe e que sei que continuar jogando bolinha de gude com seus amiguinhos no playground deve ser muito mais fácil do que explorar o inteiramente desconhecido e suas grutas devoradoras de pênis e seus mistérios destinados à eterna insolubilidade.

- Do que diabos você está falando?

Que essa sua barba malfeita arranha minha nuca de um jeito que eu não gosto, viu?

Segunda-feira, Agosto 01, 2005

GRANDE

- É claro que eu posso estar errado. Mas isso significaria que Deus está morto.
- ???
- Tá bom, Deus não está morto. É que a frase era boa demais para eu não usá-la...

Sexta-feira, Julho 29, 2005

SOL

O ventilador está desligado. Tem uma camada de melado na minha pele. Agorinha passou um trenó de gelo. Vou deslizar na duna. Dane-se que faz sol. Moço, quanto custa o pirulito? O colorido. Quero hoje a camiseta! Por que chove tanto na cidade? Duas pedras de açúcar e chega. Meu nariz vai coçar se eu espirrar. É preto de tanta sujeira embaixo da unha. Claro que eu sopro menos se eu tiver perdido o fôlego. Hoje é o dia da fogueira santa. Ai, meu Santo Antônio, dá jeito nesse meu dedinho. Aperta o alicate mais. Isso é quanto eu calço, isso é quanto eu peço. Logo chega o bonde que eu vou pegar. Faz sinal pra mim?

- Vai dizer que não gosta quando eu passo minha língua aqui?

Não. Mas mato você se parar agora.